Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

essas maravilhosas mulheres - parte II...


Por que me acham suja?
Não sou suja; sei sê-lo quando quero.
Suja, libertina, pervertida.
Carrego no ventre a imundície do mundo,
os desejos de todos os que têm desejos.
Sou a sujeira dos sem-medo,
a audácia dos que voam.
Não sou suja:
Sou livre.

***

E eis que me deparo com os extasiantes versos de Hilda Hilst:

Do Desejo

Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

[Hilda Hilst]


Domingo, 12 de Julho de 2009

essas maravilhosas mulheres...


"Não existe isso de homem escrever com vigor e mulher escrever com fragilidade. Puta que pariu, não é assim. Isso não existe. É um erro pensar assim. Eu sou uma mulher. Faço tudo de mulher, como mulher. Mas não sou uma mulher que necessita de ajuda de um homem. Não necessito de proteção de homem nenhum. Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar seus maridos. Isso entra também na questão literária. Não existe isso de homens com escrita vigorosa, enquanto as mulheres se perdem na doçura. Eu fico puta da vida com isso. Eu quero escrever com o vigor de uma mulher. Não me interessa escrever como homem."

[Lya Luft]


Incrível como essas mulheres são tão dotadas de razão...


Terça-feira, 7 de Julho de 2009


Ele bebia de seu corpo em grandes goles, parando para respirar vez ou outra, juntando fôlego para continuar se afogando no oceano que ela tinha entre o par de coxas marfim.
Embebedava-se da alma liquefeita que vazava do centro do mundo: nem mesmo Dionísio provara da embriaguez cambaleante que causava o visco divino.
Provocaram, então, a inquietação do Olimpo...


Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

diálogos...

Nem todos os diálogos são como os de "O Banquete", entre Platão e outros filósofos. Há os diálogos de amantes, os mais simples, os mais belos... Diálogos entre pessoas que se encontram (ou reencontram) por acaso, na fila do supermercado, dentro do ônibus ou em comunidades sobre literatura... Diálogos para serem lembrados por toda a vida...


Ela diz: Boa noite.
Ele diz: Boa noite, claro... Onde deixei meus bons modos?
Ela diz: Você vem sempre por aqui?
Ele diz: Mais ou menos há uma semana, se não me engano.
Ela diz: Isso mesmo...
Ele diz: Embora pareça que conheça essa pessoa por mais tempo do que seja possível acreditar.
*

Ele diz: Não adianta ficar envergonhada...
Ela diz: Não adianta tentar me fazer confessar. Até porque você precisaria me torturar...
Ele diz: Isso é um convite?
Ela diz: Pode ser...
Ele diz: Achei que se comportar excluia torturas no primeiro encontro... Mas tudo é negociável...
Ela diz: Exatamente.
*
Ele diz: A culpa é minha, toda minha. Confesso.
Ela diz: Por quê?
Ele diz: Pra você não pensar que não se comportou.
Ela diz: You can't blame me.
Ele diz: Blame beauty and desire.
Ela diz: Desire is such a dangerous thing...
*
Ela diz: It feels good...
Ele diz: So good... Could it feel better?
Ela diz: I have no idea... What could be better than that?
Ele diz: My imagination doesn't let me say.
Ela diz: Your imagination does... your lips don't.
Ele diz: Unfortunately.
Ela diz: That's a shame...
Ele diz: Nem me fale...
*
Ele diz: Você dança muito bem.
Ela diz: Você ainda não viu nada... Eu tenho ritmo.
*
Ele diz: Você é linda demais, doida demais.
*
Ela diz: Estou apaixonada por você, sabia?
Ele diz: Estava duvidando... E sabe o que mais?
Ela diz: O quê?
Ele diz: Eu também. Você está me fazendo pensar em loucuras...
*
Ele diz: Estou com vergonha e medo de escrever sobre o que você me faz sentir.
Ela diz: Por quê?
Ele diz: É. Porque você me faz duvidar de tudo, não estou brincando quando digo que você está abalando meu mundo... Não sei o que sobra depois do terremoto.
Ela diz: A gente só descobre se passear no meio dos escombros depois. Porque aí tem certeza que sobreviveu.
Ele diz: E eu sobrevivo a você? Com doses de morte doce todas as noites?
*

Ela diz: Adorei o que você escreveu...
Ele diz: Só escrevo para alguém quando estou apaixonado.
*
Ela diz: Você fuma?
Ele diz: Não. O meu pulmão é o de um fumante mas não fumo.
Ela diz: O que tem seu pulmão?
Ele diz: Bom, eu tenho várias "ites".
Ela diz: Bronquite?
Ele diz: Sim.
Ela diz: Rinite, sinusite?
Ele diz: Rinite e sinusite por enquanto não.
Ela diz: Eu tenho os dois.
Ele diz: Que gostoso. Então vamos espirrar juntos. Vamos ao supermercado comprar lenços de papel.


Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Eternal Sunshine of the Spotless Mind

I love that movie... And i'm just like Clementine Kruczynski sometimes...
There are interesting quotes about it...

You can erase someone from your mind. Getting them out of your heart is another story.

Clementine's quotes:
  • Drink up, young man. It'll make the whole seduction part less repugnant.
  • I'm always anxious thinking I'm not living my life to the fullest, y'know? Taking advantage of every possibility? Just making sure that I'm not wasting one second of the little time I have.
  • ...you stop listening to what is true, and what is true is constantly changing.
  • I apply my personality in a paste.
  • I'm a vindictive little bitch, truth be told.
  • I'm not a concept. Too many guys think I'm a concept or I complete them or I'm going to make them alive, but I'm just a fucked up girl who is looking for my own peace of mind. Don't assign me yours.
  • Don't assign me your life.
  • You look familiar. Ever shop at Barnes & Noble?

About Joel and Clementine:

Clementine: You're not a stalker or anything, right?
Joel: I'm not a stalker. You're the one that talked to me, remember?
Clementine: That is the oldest trick in the stalker book.
Joel: Really? There's a stalker book? Great, I gotta read that one.

*

Clementine: You know me, I'm impulsive.
Joel: That's what I love about you.

*

Joel: I can't see anything I don't like about you.
Clementine: But you will, you will think of things and I'll get bored with you and feel trapped because that's what happens with me.
Joel: Ok.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

não-acontecimentos, tempo, intimidade...

Uma série de pequenos fatos são capazes de alterar a paz do dia. Da mesma forma, o não-acontecimento é igualmente parceiro da falta de qualquer coisa, daquilo que não se sabe o que é, mas que agiganta-se de modo a causar tempestades e mau tempo. São pessoas que passam, outras que chegam e desejam ficar; outras ainda que são tragadas por algum buraco negro estacionado num ponto de ônibus qualquer e vão embora sem se despedir. É como estar sentado na sala de estar de um consultório médico, onde você pode (ou não) conhecer alguns daqueles rostos e criar um vínculo de intimidade que não tem com os mais íntimos. Mas o que define a intimidade, não é mesmo? A intimidade é uma cadela sem idade ou vergonha que faz ponto onde lhe convém, sem se preocupar com o tempo que passou ou com o tempo que ainda está por vir. Mas essa vira-latas não usa correntes ou coleiras: ela é nômade. Um dia ela parte e passa a fazer ponto em outra esquina, onde quer que seja, desde que sinta que aquele é o seu lugar. Pelo menos por enquanto...

peito

Sou uma batida
A primeira,
quando os olhos se abrem.
Sou duas batidas
No segundo segundo
com o sol em meus olhos
quando tudo é lento:
o ar, o dia, a valsa.
Sou muitas batidas
quando o grito ecoa,
os olhos gotejam,
o pulso enlouquece.
Sou nenhuma batida
quando a sala esvazia,
a música se cala,
a alma fenece.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

ainda sobre coisas simples...


Sentia uma espécie de corrente elétrica seguindo o fluxo do sangue conforme a noite se aproximava. Estava mais desperta que o normal. Um punhado de sensações transbordava pelos poros, molhava os pelos, aquecia o corpo. A blusa preta aberta caía e deixava parte dos ombros à mostra, como o vale entre os seios e, mais abaixo, o centro do corpo, aquele monte vivo e incandescente encaixado onde as coxas se encontravam.
O cheiro dele estava impregnado na blusa. Abriu a garrafa de vinho e deitou-se no sofá, desejando que ele não demorasse aquela noite. A bebida aliada ao desejo que se alastrava pela pele tornava seu corpo ainda mais febril. Com o dedo indicador contornava a beira do copo, tentando conter a vibração que tomava o meio de suas pernas. Apertava as coxas e relaxava, num ato de quase-masturbação... Não queria se tocar, queria guardar o desejo para que o outro a incendiasse e depois acalmasse. Podia sentir como se derretia por dentro e como o fogo fluido saía de seu corpo, molhando sua virilha, suas coxas. As recordações da noite em que a mágoa pela espera foi transformada em realização de um desejo contido a acendiam ainda mais. A imagem dele agarrado aos ferros naquele estacionamento, quase se desfazendo em sua boca, faziam seu sexo vibrar insuportavelmente. Lembrava de cada pulsação do pênis em sua boca, de cada jato quente que ele despejara nela... E o grito... o grito... o arfar... a respiração forte dele no meio do silêncio... Era tão comovente... E a imagem ia tornando-se distante, turva, calada...
Com os olhos fechados, sentiu o corpo ser esmagado, lentamente movimentado... Aos poucos foi tomando consciência novamente de seu corpo e do que acontecia dentro dele: seu amante havia chegado e, de alguma forma, excitou-se com a visão da mulher dormindo semi-nua em seu sofá, vestindo apenas sua blusa, totalmente desprotegida...
Ele a comia devagar mas tão fundo que, a cada estocada, apertava os olhos e rosnava sandices... À princípio pensou em resistir, em mandar que ele parasse, mas ele entrava e saía tão facilmente que revelava o quanto ela estava molhada. Sentiu a carne arder. Fingiu ainda estar sonolenta e espantou-se como ele estava impressionantemente duro e inchado dentro dela. Ele ia e voltava lentamente, como se quisesse prolongar seu prazer eternamente, como se quisesse estar nela até morrer. Seu desejo aumentava à medida que ele arfava. Ele conseguia enlouquecê-la.
Sem poder mais conter sua voz e os movimentos de seu corpo, ela abriu os olhos. Ele sorriu para ela e continuou mexendo. Ela pediu que ele parasse e se acomodasse sentado no sofá. Ele obedeceu, gemendo, com o sexo palpitando em sua mão, babando, enquanto observava o corpo dela se mover e apanhar a garrafa de vinho ao lado do sofá. Com a garrafa na mão, encaixou-se sentada nele, abocanhando o pênis com a boca que sorria no meio de suas coxas. Enquanto subia e descia lentamente, bebia o vinho na própria garrafa, oferecendo o líquido morno em sua boca para o outro beber.
O vinho os alimentava como combustível, fazia seus corpos ficarem mais sensíveis e despertos, atentos à cada gesto, cada toque, cada movimento dos quadris, cada beijo de línguas e dentes, cada investida contra o útero.
Inchado e desesperado, ele soltava ais e arquejava e respirava aceleradamente, prevendo o terremoto que se formava em seu sexo, prevendo que o gozo viria enchê-la. E ela, plenamente consciente do que acontecia, também sentia seu ventre contrair em espasmos incontroláveis; sentia a onda quente apertar o sexo dele e inundar suas coxas. E veio então o grito. E o gozo. E depois o silêncio. E a calma. E a sensação pulsante de um corpo dentro do outro corpo, que explode e se dissipa, aos poucos, enquanto a pequena morte os tornava novamente suaves, afáveis, ternos.